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terça-feira, 17 de abril de 2012

Ser poeta

Queria ser mais romântica
Saber escrever sobre amor e sobre a solidez do que sentimos insólito
Queria poder confortar o outro com um sentimento em comum
Com aquele reconhecimento da dor, ou aquele riso de amor correspondido
Queria transbordar emoção
E saber transformar essa avalanche em ondas de palavras mansas, nadáveis
Se fosse revolto, seria mar
Se calmo, um lago
E saberia transpor todas essas metáforas e metonímias em textos poéticos
E faria da minha poesia, sua
Da minha dor, a sua
E do meu amor, o nosso
Entraria em você como você mesmo
E você não saberia que era você, mas seria
E encontraria em mim sua resposta, sendo que estava sempre em você o que procurava
Caminharia pelo caminho que já havia percorrido sem reparar
Como queria ser essa corrente que apenas te levaria para a mesma fonte...
Você.
E quando somos levados a nós mesmos...
Eis a maior felicidade de encontro
Ainda mais carregado pelos seus braços.

domingo, 1 de abril de 2012

Utopia anti-heróica

Indubitavelmente claros.
Nunca vi tamanha vontade de expor a verdade. Tamanho louvor pela autenticidade e pelo "sou assim e pronto". Qual a razão por essa mudança de idolatria? Pelo embelezamento do ser diferente, do ir contra as regras, do não seguir estereótipos e diretrizes sociais? Estamos a cada dia fugindo do comum, do esperado e do homogêneo. Parecemos saturados das fantasias, do escondido, do suspense, da beleza do fingir saber.
Hoje em dia é bonito admitir ter defeitos, é bonito expor suas fraquezas, é bonito ir contra o que todos acham bonito. Hoje em dia o que vale é questionar, mesmo que não se saiba o que.
É, diga-se de 'estadia', admitir que não se sabe.
O mundo suplica pela exposição do que nem mesmo nós conhecemos de nós mesmos.
O mundo quer transparência, quer humanidade, quer palavras novas. O mundo quer parecer mundo. O mundo quer parecer igual pela diferença. Quem não quer ser único?
Quem não É único?
O mundo quer ser simplesmente ele mesmo. E em meio a esses milhões de eu mesmos ser um. E é isso que no fundo somos. Nossas diferenças e igualdades são unas. Embora roupas, cultura, bens, gostos, afinidades, escolhas, vontades; somos pele. Somos coração, fígado, rim, pulmão. Somos cérebro, sentimento, angústia, vontade, prazer. E disso, não podemos nos distinguir.
Somos humanos, porra. E até a porra nos iguala.

idolatria brechtiniana

- é um pássaro? é um avião?
- sim.

quinta-feira, 22 de março de 2012

De pernas a patas e cabelos a antenas

E então já não eram cabeças ou braços e pernas.
Eram o que? Seriam patas, antenas, asas?
E era tão menor... Mas não era assim que eu me lembrava.
Não era... Ou era?
Parecia marrom, ou verde?
Já não enxergava mais. Ou já não queria enxergar?
Mas sei que não era assim. Ao menos acho que sei.
Tudo mudou tão de repente. Como as coisas mudam tão de repente? Por que?
Tenho certeza que era um corpo, com cabelos. Sim, agora tenho certeza!
Mas que certeza é essa repentina? É mais vontade de ter certeza.
Mas como posso me esquecer disso?
Agora só vejo algo pequeno... Na verdade não vejo mais. Admito.
E era tudo tão lúcido. Era tudo tão certo. Ou não?
Se era, como não é mais?
Nem eu mais me vejo. Não sou pernas, braços e cabelos.
Sou...
Sou... Sou talvez antenas, patas e asas.
Sim, sou asas, antenas e patas. Talvez pra você.
Somos os mesmos para nós, e outros mesmos ao olhar do outro.
Sou braços para mim, asas para você.
Eis patas para mim, pernas para você.
Mas embora patas, braços, antenas, pernas, asas, somos simplesmente e unicamente os mesmos.
E não há palavras que nos definam.
Embora sempre tentemos.
zzz.

Ainda sou pernas e braços, e sei, no fundo (e no raso) que você também.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

e lá foi o ser humano
e voltou somente o ser
que ao pisar, logo virou
e nos deixou, sós.
nada de ser humano

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Antítese

Como posso te dizer que a culpa é da sua pele?
Não, do seu cheiro.
Tudo bem, não culpo seu perfume, mas por que seus olhos inistem em me olhar?
E não é só o modo como você me olha, é a intensidade. A cor, o brilho.
Por que esse olhar inocente?
A sua boca ainda por cima sorri. E esses lábios, macios, resolvem se separar e expor seus dentes brancos e alinhados. Como se você não fumasse.
E não ri, por favor. O som da sua risada me mata. Me conforta mas me mata.
E quando você me puxa, me aperta e sorri como que dizendo: ri comigo?
Está tudo muito próximo. Sua pele na minha, seu olhar no meu, seu hálito no meu rosto.
E quem disse que eu quero rir?
Me solta. Mas você não percebe. Você simplesmente continua sorrindo e me abraça.
E esse abraço.. Esse abraço... Dá pra encostar menos em mim?
Dá pra encaixar menos no meu corpo?
Não quero sentir seu coração ao encostar minha cabeça no seu peito.
Não quero me confortar nos seus braços. Nem fechar os olhos com seu cafuné.
Você não percebe?
Não me toque, não me chame, não me olhe, não respire, não sorria...
Dá pra não existir?
Eu não suporto mais te ter comigo.
Eu não suporto mais fingir que está tudo bem.
Eu não me suporto mais.
Você não percebe?
Ao menos, deixa eu fingir...

sábado, 28 de janeiro de 2012

O movimento é a poesia do corpo, a libertação da alma.